IGc realiza diplomação honorífica de Sidney Fix Marques dos Santos e celebra correção da causa mortis de Ronaldo Mouth Queiroz

Fotos: Wagner Venâncio (IGc/USP)

Na tarde de 5 de dezembro de 2025, o Instituto de Geociências da USP (IGc/USP) sediou a cerimônia “Diplomação honorífica de Sidney Fix Marques dos Santos e Correção da causa mortis na certidão de óbito de Ronaldo Mouth Queiroz”, ato marcado por forte dimensão histórica, institucional e afetiva. O evento integrou o programa “Diplomação da Resistência”, iniciativa da Universidade de São Paulo voltada à reparação simbólica dos estudantes perseguidos e assassinados pela ditadura civil-militar.

Participaram da mesa o pró-reitor de Graduação e reitor eleito da USP, Prof. Dr. Aluisio Augusto Cotrim Segurado; a pró-reitora adjunta de Inclusão e Pertencimento, Profa. Dra. Miriam Debieux Rosa; a diretora do IGc, Profa. Dra. Marly Babinski; o presidente do Centro Acadêmico do Instituto de Geociências (CEPEGE), Vítor de Melo Rodrigues; o geólogo e ex-aluno Adriano Diogo, representante de Ronaldo Mouth Queiroz; a colega de turma de Ronaldo, Iara Weissberg; e a irmã de Sidney, Leda Mariana Marques dos Santos Tronca. A solenidade contou ainda com a presença de docentes, estudantes, familiares, ex-parlamentares e militantes históricos.

Reparação histórica e compromisso com a democracia

Na abertura das falas, a diretora do IGc, Profa. Marly Babinski, destacou que o projeto “Diplomação da Resistência”, lançado no Instituto em 15 de dezembro de 2023, tornou-se uma das iniciativas mais relevantes da USP nos últimos anos. Segundo ela, trata-se de uma ação voltada ao reconhecimento das injustiças cometidas pela ditadura, à preservação da memória e à defesa da democracia.

Marly lembrou que, desde o lançamento do projeto, mais de 30 estudantes da USP já receberam diplomas honoríficos em diversas unidades da universidade. Ao tratar especificamente de Sidney e Ronaldo, enfatizou que ambos tiveram sua trajetória interrompida pela violência de Estado e que os atos daquela tarde reafirmam a responsabilidade institucional com a verdade e a justiça. Para a diretora, a universidade não existe apenas para produzir conhecimento, mas também para encarar criticamente seu passado e reparar injustiças. Ela ressaltou que Sidney e Ronaldo “sonharam com um país mais justo” e que, ao reconhecer a violência que sofreram, a USP reafirma que eles pertencem à história da instituição e “não serão esquecidos”.

Vozes da família e dos colegas: memória e dor

Em seguida, a irmã de Sidney, Leda Mariana Marques dos Santos Tronca, comentou sobre a convivência com o irmão e da dor do desaparecimento na ditadura. Ela afirmou sentir-se honrada pela homenagem e relatou que leva o gesto “no coração mais aliviado”, após décadas de saudade e silêncio.

O geólogo Adriano Diogo, colega de geração e representante de Ronaldo, fez um relato detalhado sobre a militância estudantil e as circunstâncias da execução de Queiroz em 1973, na Avenida Angélica, em São Paulo, destacando que a versão de “tiroteio” foi forjada pela repressão. A recente correção da causa mortis no registro de óbito, determinada após decisão do Conselho Nacional de Justiça, é apresentada como um marco que finalmente reconhece a responsabilidade do Estado brasileiro. A colega de turma Iara trouxe lembranças do cotidiano estudantil na Geologia, das caminhadas até o CRUSP e da convivência alegre com Ronaldo. Ao conectar passado e presente, alertou para os riscos de retrocesso democrático e para as mobilizações da extrema direita na atualidade, reforçando que a memória daqueles anos deve servir como advertência e motivação para a resistência.

Estudantes ressignificam espaços e memória

O presidente do CEPEGE, Vítor de Melo Rodrigues, ressaltou o significado da cerimônia para as novas gerações de estudantes, que hoje frequentam os mesmos espaços onde caminharam Sidney e Ronaldo. Ele lembrou que, em abril de 2025, o centro acadêmico foi batizado com o nome de Ronaldo Queiroz, como forma de manter viva sua trajetória no dia a dia da comunidade discente. Vítor enfatizou a necessidade de ressignificar nomes de espaços, ruas e prédios, questionando homenagens a figuras associadas à violência ou a projetos de universidade excludente. Segundo ele, iniciativas como a diplomação honorífica e a mudança de nomes de espaços contribuem para reconstruir a história do IGc e da USP sob a perspectiva daqueles que lutaram por liberdade, justiça e direitos civis. Ele também recordou a tentativa de golpe recente no país, reforçando que a universidade não pode se calar diante de avanços autoritários.

Diplomação da Resistência: memória como política institucional

Representando a Pró-Reitoria de Inclusão e Pertencimento, a Profa. Miriam Debieux Rosa situou o programa “Diplomação da Resistência” no contexto das investigações da Comissão da Verdade da USP, que identificou violações cometidas contra estudantes durante a ditadura. A diplomação honorífica, explicou, foi uma das recomendações da comissão, articulada com o coletivo estudantil VMDC e com movimentos de memória da cidade. Miriam sublinhou que a cerimônia é ao mesmo tempo um gesto de homenagem e um compromisso institucional: reconhecer publicamente que a vida, a formação acadêmica e a contribuição potencial desses estudantes foram interrompidas pela violência de Estado. Segundo a pró-reitora adjunta, a memória é a “primeira linha de defesa contra o autoritarismo” e a universidade precisa marcar posição contra a continuidade de práticas de violação de direitos, especialmente contra os grupos mais vulneráveis.

Diploma como ato político de reparação

Falando em nome da Pró-Reitoria de Graduação, o Prof. Marcos Garcia Neira descreveu o momento como um ato de memória, responsabilidade e compromisso público com a democracia. Ele relembrou que o relatório da Comissão da Verdade registra Sidney como um aluno de destaque, aprovado entre os primeiros colocados em 1959 e bolsista da Petrobras, e Ronaldo como liderança política expressiva à frente do Diretório Central dos Estudantes. Neira destacou que o programa “Diplomação da Resistência” transforma o diploma – tradicional símbolo do mérito acadêmico – em ato político de reparação e resistência, reafirmando que a universidade deve ser um território de liberdade e defesa intransigente dos direitos humanos. Para ele, uma universidade só pode ser verdadeiramente grande se for, antes de tudo, justa, plural e comprometida com a dignidade humana.

Trajetória militante de Sidney e a luta pela libertação

O Prof. Túlio Vigevani (UNESP), ex-dirigente estudantil e militante da mesma geração de Sidney, lembrou que o estudante de Geologia atuou como militante do Partido Operário Revolucionário (trotskista) e foi responsável pelo jornal “Frente Operária”, dedicado à análise da conjuntura nacional e internacional. Vigevani destacou que Sidney foi alvo de um dos primeiros Inquéritos Policiais Militares (IPM) da ditadura, o que o obrigou à clandestinidade desde 1964 até o exílio na Argentina, onde foi assassinado em 1976 em contexto de coordenação repressiva entre ditaduras do Cone Sul.

O Deputado Federal e ex-presidente da Câmara dos Deputados Arlindo Chinaglia também se pronunciou, relatando como tomou conhecimento da prisão de Sidney na Argentina e participou de campanhas pela sua libertação. Chinaglia reforçou que aqueles jovens lutavam pela democracia, mas também por solidariedade humana e contra a miséria, e alertou para o caráter prolongado da disputa ideológica atual, marcada pelo avanço de formas extremas de direita.

Certidão retificada e diploma honorífico

Ao final da cerimônia, foi realizada a entrega da certidão de óbito retificada de Ronaldo Mouth Queiroz ao presidente do CEPEGE, Vítor de Melo Rodrigues. O novo documento anula a versão falsa de morte em tiroteio e reconhece que o estudante foi executado em decorrência da perseguição política, oficializando a responsabilidade do regime militar.

Na sequência, a diretora do IGc, Profa. Marly Babinski, entregou o diploma honorífico de geólogo de Sidney Fix Marques dos Santos à sua irmã, Leda Mariana Marques dos Santos Tronca. A diplomação reafirma que o afastamento de Sidney da universidade não foi voluntário, mas consequência direta da perseguição política que culminou em seu assassinato.

Encerramento

Ao reconhecer oficialmente as trajetórias de Sidney Fix Marques dos Santos e Ronaldo Mouth Queiroz, o IGc/USP e a universidade reafirmam seu compromisso com a memória, a verdade, a justiça e a defesa da democracia, resgatando a centralidade dos estudantes que tiveram suas vidas brutalmente interrompidas pela violência de Estado e inscrevendo seus nomes, de forma definitiva, na história da instituição.

Você pode gostar...